Na calmaria do interior, onde o vento sopra leve e o silêncio da natureza conversa com a alma, viviam dois cachorros inseparáveis. Eles cresciam juntos na mesma fazenda, brincando pelos pastos, correndo atrás de borboletas e dividindo desde os ossos até os sonhos mais íntimos.Era uma amizade que parecia eterna, daquelas que aquecem o coração e dão sentido aos dias simples do campo.

Um deles, no entanto, guardava um desejo que crescia a cada dia: conhecer a cidade grande. Ele sempre ouvia histórias dos viajantes que passavam pela estrada de terra, contando sobre luzes, movimento, sons e novidades que nunca chegavam ali. Esse cachorro sonhador olhava para o horizonte com brilho nos olhos, imaginando como seria viver algo diferente.
Certo dia, ele tomou coragem. Enquanto a lua iluminava o terreiro com um brilho prateado, decidiu fugir em silêncio para tentar encontrar o caminho até a cidade. Antes de partir, ele se despediu do amigo que ficaria. O reencontro das lágrimas foi inevitável. O cachorro que ficava tentava ser forte. Desejou sorte, pediu cuidado e abraçou seu amigo como quem segura um pedaço do próprio coração prestes a ir embora.
A despedida doeu. Depois daquela noite, o cachorro que permaneceu na fazenda viveu anos de saudade. Não tinha mais com quem brincar, não tinha mais quem o acompanhava nas aventuras do pasto e nem quem dividia o descanso debaixo das árvores. Ele sentia falta das conversas silenciosas, dos olhares cúmplices e da companhia que fazia qualquer dia comum parecer especial.
O tempo passou. A vida seguiu seu ritmo lento na fazenda. As estações mudavam, os sons da natureza eram os mesmos, mas algo sempre faltava. Era como se uma parte dele tivesse ido embora naquela noite e nunca mais tivesse voltado.
Até que, numa manhã ensolarada, algo diferente aconteceu. O cachorro olhou para a estrada e viu uma silhueta conhecida se aproximando. O coração acelerou, como se reconhecesse antes mesmo que os olhos confirmassem. A alegria tomou conta dele.
Era o velho amigo da cidade.
Vinha caminhando com energia, com o rabo abanando e com uma felicidade que parecia carregar todo o caminho percorrido até ali. Quando se encontraram, os dois cachorros pularam, correram, se abraçaram e brincaram como se o tempo nunca tivesse passado. Parecia que a fazenda inteira vibrava com aquele reencontro.
Depois da explosão de alegria, o cachorro recém-chegado começou a contar suas histórias. Falou sobre as luzes brilhantes da cidade, sobre os sons agitados, sobre os carros passando sem parar, sobre as pessoas apressadas e sobre as aventuras que viveu nos becos e parques da cidade grande. Confessou também que muitas vezes sentiu medo, que passou por perigos, que teve que aprender a se virar, mas que cresceu e viveu coisas que jamais imaginou.
O amigo que ficou escutava tudo com atenção. Seus olhos brilhavam de curiosidade, mas também de dúvida. Aquela vida agitada parecia fascinante — mas ao mesmo tempo assustadora. Era muita informação para quem passara a vida inteira no sossego do campo.
Foi então que o cachorro da cidade disse:
— Você deveria conhecer tudo isso pelo menos uma vez na vida. É uma experiência que muda a gente.
Aquela frase ficou martelando na cabeça do cachorro da fazenda. Ele sabia que sair significava deixar o conforto da casa, a segurança da rotina e enfrentar o desconhecido. Mas também significava viver algo novo e dividir mais aventuras com seu amigo.
E assim o dia foi passando. Os dois conversaram, brincaram, lembraram da infância e aproveitaram cada minuto como se o tempo quisesse compensar a distância dos últimos anos. À noite, enquanto olhavam o céu estrelado, o cachorro que nunca saiu continuava pensativo, revivendo cada palavra do amigo.
A despedida não veio naquele dia. Mas a pergunta ficou no ar, suspensa entre o medo e o desejo, entre o conhecido e o inesperado.
E aí… na parte 2, vocês acham que ele vai com o amigo conhecer a cidade grande?
Coloque nos comentários qual seria a sua escolha se estivesse no lugar dele!
